terça-feira, 27 de agosto de 2019

De olhos postos no ferro: prevenir a recorrência da DII


A vida de quem sofre de doença inflamatória intestinal (DII) já não é fácil. Os sintomas, nem sempre fáceis de controlar, fazem-se sentir a nível físico e psicológico, com dor abdominal e idas constantes à casa de banho. Uma vida que se complica ainda mais quando a este problema se junta outro: a deficiência de ferro, que conduz à anemia, problema que afeta, por cá, cerca de 15 a 20% destes doentes. “A anemia é uma entidade mórbida e uma das complicações da DII que mais contribui para a perda de qualidade de vida, devido à múltipla sintomatologia provocada, pelo que a sua deteção e correção são muito importantes para a manutenção da qualidade de vida”, confirma João Ramos de Deus, gastroenterologista.

Detetar e corrigir é, como refere o especialista, determinante para uma boa qualidade de vida, mas prevenir a sua recorrência não é menos importante, o que passa por estar atento aos níveis de ferro, a chamada ferritina. É que, ainda que sejam vários os mecanismos que podem levar à anemia, é essencialmente por défice de absorção de ferro que esta acontece, como confirma João Ramos de Deus, juntando-se as dificuldades na absorção de vitamina B12 e ácido fólico e ainda “a ação inibidora sobre a medula óssea, que tem a ver com a própria inflamação intestinal e devido às perdas crónicas de sangue pelo tubo digestivo”.

Ana Sampaio, presidente da Associação Portuguesa da Doença Inflamatória do Intestino (APDI), esclarece que “tanto a colite ulcerosa como a doença de Crohn comprometem a capacidade de absorção intestinal nos momentos de crise. Por isso, não é possível absorver todos os nutrientes e minerais dos alimentos e o que acaba por acontecer é instalar-se a anemia decorrente da falta de ferro”.

Hoje, os resultados das análises já indicam os valores de referência da ferritina não só para a população em geral, mas também para alguns grupos de risco, entre os quais os doentes com DII, para quem os valores de ferritina devem estar acima dos 100 ng/ml em caso de doença ativa. Mesmo sem anemia, valores abaixo deste devem motivar a consulta de um especialista, para evitar a recorrência da anemia. Porque, tal como reforça Ana Sampaio, para os doentes, a anemia e a deficiência de ferro são um peso acrescido. “Estas doenças já se caracterizam por condicionar a vida das pessoas. A anemia e a deficiência de ferro condicionam ainda mais, ao retirar energia. Os doentes não conseguem fazer tarefas simples do dia a dia, como estender a roupa ou subir uma rua mais íngreme. O cansaço é constante.”

É preciso, por isso, alerta Ana Sampaio, maior atenção por parte dos doentes para os sintomas da anemia e da deficiência de ferro e também dos médicos, que precisam de ser mais sensibilizados para a relação entre estes e a DII.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Os atletas também podem ser rostos da anemia


A anemia não é uma doença elitista, ainda que um pouco sexista (afeta mais as mulheres). Não discrimina consoante o nível de educação, os rendimentos ou até a forma física. É que, aqui, nem os atletas escapam, apesar de, para este grupo específico, faltarem estudos capazes de identificar a prevalência desta condição clínica. Mas segundo Hélder Dores, especialista em Cardiologia Desportiva do Hospital das Forças Armadas e da NOVA Medical School, são vários os trabalhos que confirmam que a prevalência da “anemia e deficiência de ferro é superior em atletas do que na população geral saudável”.

Com sintomas que fazem com que se confunda com vários outros problemas, alguns mesmo decorrentes de uma vida mais agitada, muitas vezes a anemia é apenas detetada em exames de rotina. Um problema que “pode afetar a prática de desporto, bem como qualquer atividade física na população geral”. Mas no caso dos “atletas de elevado nível competitivo, nos quais todos os pormenores contam, a anemia afeta significativamente o seu rendimento”, explica Hélder Dores. Cansaço e taquicardia, manifestações típicas da anemia, “têm uma influência óbvia, precipitando estados de exaustão e dificultando a fase de recuperação. Por outro lado, a anemia e a deficiência de ferro afetam outros sistemas como o sistema imune e outras funções fisiológicas, com impacto na prática desportiva”.

A deteção precoce é fundamental, para a implementação de “estratégias preventivas e tratamentos adequados”. Mas para isso é preciso que os atletas conheçam a anemia, identificando os sintomas, reconhecendo os sinais de alerta, algo que, refere Hélder Dores, não acontece. Um desconhecimento que, acrescenta, “deve ser semelhante à população geral, em que mais de 80% das pessoas com anemia desconhecem a sua existência”. 
Até porque “a pesquisa de anemia não constitui uma rotina, exceto na presença de sintomatologia suspeita ou em determinados desportos de atleta de nível competitivo, em que a avaliação analítica é comum, incluindo sempre um hemograma”. Algo que, defende o especialista, é urgente mudar. “No contexto competitivo atual, com início cada vez mais precoce da prática de exercício, exigências de treino superiores, volumes de exercício progressivamente maiores, número crescente de atletas femininas e o reconhecimento da importância do apoio nutricional e da suplementação dos atletas, a pesquisa de anemia faz todo o sentido.”

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Anemia, um risco também para as crianças


Não se conhecem os números. Não se sabe quantas crianças sofrem, em Portugal, de anemia, mas sabe-se que, tal como acontece com os adultos, também aqui o principal responsável é a deficiência de ferro. Lino Rosado, pediatra, conhece bem o problema. E confirma que, apesar de “a incidência de anemia por falta de ferro na criança ter vindo a diminuir significativamente nas últimas décadas, mantém-se ainda como a causa mais frequente de anemia e de deficiência nutricional”.

O problema costuma manifestar-se sobretudo no primeiro ano de vida. Resultado de “um crescimento muito rápido” ou da “ingestão inadequada de ferro”, afeta sobretudo “os bebés nascidos pré-termo e as crianças com baixo peso ao nascer, assim como as crianças que mantêm durante muito tempo uma alimentação exclusivamente láctea”.

O risco existe. Mas a boa notícia é que, aqui, “a intervenção dietética durante os rápidos períodos de crescimento, assim como a suplementação em crianças de risco” ajuda a prevenir a ferrópenia e consequente anemia por falta de ferro.

Estar atento aos sinais que indiciam a presença de anemia nos mais pequenos, como “o cansaço, falta de apetite e pele e mucosas pálidas” é fundamental, até porque, reforça o especialista, “a carência em ferro pode ainda ter implicações no desenvolvimento da criança e em particular no neurodesenvolvimento”.

Porque a anemia tem rosto e este pode ser o de cada um de nós, partilhe a sua história ou testemunho sobre este problema de saúde, que não precisa de ser uma inevitabilidade. Escreva para orostodaanemia@gmail.com